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Caio

“Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.”

Caio Fernando Abreu.



Eu já passei por momentos na minha vida que pensei ser a desistência o melhor dos remédios. Momentos em que a confusão era tanta, a ponto de não saber se haveria respostas pra tanta pergunta. Temia procurá-las dentro de mim, poderia me perder em meio a tanta dúvida. Evitava acreditar que elas viriam de fora, afinal era um momento particular e poucas pessoas me socorreriam de algo que estava aqui dentro, oculto, guardado, machucando-me.

Sei, também, que ainda sou um jovem de apenas 22 anos e que tenho muito a viver, contudo posso dissecar meus momentos de angústia, a fim de aprender e apreender belezas até mesmo das feiuras;  e corroborar com o bom desenvolvimento da vida. Ser moço não é sinônimo de inexperiência, não quer dizer ignorância, pelo contrário, pode provar a muitos que idade nem sempre quer dizer inteligência, sabedoria e até mesmo qualidade de vida. Na vida, nem toda regra é peremptória e as exceções estão aí pra validar as poucas regras que, ainda, permanecem.

É na adolescência que somos bombardeados pelas dúvidas mais inquietantes, as mais insaciáveis. Mas (já) posso dizer que ser jovem, num mundo pós-moderno e cheio de novidades, totalmente internetizado, também não é tão fácil. Enquanto o adolescente luta pra obter respostas, ou no mínimo aquietar o coração, o jovem luta pra acompanhar a evolução, a fim de não viver dando passos descompassados com seu tempo. Felizes aqueles que conseguem se valer da sabedoria que vem do alto; sim, é possível viver à frente de seu tempo.

Em algumas fases da vida, viver é um exercício infrutífero. A cada dia, sob a presença do imponderável, a cada instante, pegos pela chegada sem aviso prévio do novo, lutamos pra não olhar pra dentro de nós mesmos. Só vemos obscuridade, nos sentimos ocos. Parece que fomos jogados no meio do Oceano, não há resgate, não há botes, não há perspectiva.

Mas o imponderável nem sempre nos desfavorece; de repente alguém nos estende a mão. Sem premeditar, vemos diante de nós uma boa ideia; boas perguntas que geram em nós alternativas; respostas não elementares ou perguntas libertadoras. Carinho, afeto, consolo, companhia, amizade, família, amores…eis a recompensa dos pacientes. Somos surpreendidos pelo milagre, Deus revela estar conosco num simples gesto alheio. Só assim é que percebemos que correr, a fim de alcançar soluções rápidas, pra nada vale. Não ganhamos nada com a pressa. Uma boa alternativa para momentos de angústia, indecisões e incertezas, talvez seja parar, encher o peito de ar, tomar fôlego e dar passos lentos, calmos, tranquilos. Até aqui, viver me provou que, quando parece que chegamos no fim, nada é melhor que desacelerar, repensar e reinventar a própria vida.

Amigo, atenda este conselho. Acolha esta sugestão. Pode ser que a sua vida te prove, assim como a minha tem me provado, que o segredo não é correr, somente caminhar.

Com muito carinho, a você Fe.

Uma verdadeira pérola que ganhei  do maravilhoso e grande amigo, Will.

Descontrução

Não quero reformar nada! Não quero reformar ninguém! Apenas quero desconstruir minha religião e dar-me a oportunidade de começar novamente. Do zero! Quero aprender a orar porque suspeito que nunca aprendi em todos esses anos de eloquentes orações entonadas no conjunto de súplicas adornadas de lindos verbos.

Tenho a ligeira impressão de que todas as vezes em que falei em línguas na roda de oração para fazer notório o meu nível espiritual, não me valeram de edificação alguma. E que minhas devocionais carregadas de desânimo e obrigação para com a minha “consagração” no ministério de louvor não resultaram em nenhuma intimidade com Deus!

Quero desfazer de tudo que sei, ou que penso saber, e de tudo que não sei, e penso não saber, para aprender paulatinamente através de uma busca sincera, paciente, desobrigada, verdadeiramente motivada e autêntica, tudo quanto preciso, quanto quero e quanto me é essencial na jornada da fé. Quero despojar-me dos manuais religiosos, das doutrinas inquestionáveis, das tradições incoerentes e da estupidez e falácia da religião.

Quero duvidar de tudo e de todos, porque minha alma contorce pela verdade e tem sede de justiça. Quero abrir os meus olhos e enfrentar o ardor da luz cortante da revelação. Quero ficar cego por um tempo em virtude do impacto que a luz da verdade traz. Ficar cego para o enlatado evangélico, cego para o cauterizado cristianismo institucional. Quero ficar cego para as fórmulas instantâneas da fé, da sua comercialização e do abuso espiritual. Quero recobrar a visão aos poucos. Enxergar com sanidade a vida, as pessoas, a família, os amigos, o futuro, o presente e o passado. Quero aprender a enxergar tudo que enxergava errado. Usar minha visão pela primeira vez!

Quero me desviar dos caminhos da “i”greja que não segue o Caminho de Cristo. E andar na contra-mão desse sistema religioso elaborado sobre outro fundamento que não Jesus, a Rocha Viva. Quero tirar a capa que me identifica como “cristão” com o emblema da cruz para vestir-me de amor pelo próximo e por esse amor ser conhecido como discípulo de Cristo. E carregar não o emblema da cruz, antes, tomá-la dia após dia em meus ombros e renunciar à volúpia e morrer para o pecado.

Quero fugir dos grandes eventos de milagres e shows da fé, patrocinados por sórdida ganância e puro estrelismo. E me juntar aos homens de Deus presenteados com o dom da cura que trocam o palco pelo corredor dos hospitais. Que ao invés de pedirem que vão a eles, se disponhem a IR aos que necessitam.

Cansei de viver sob maldição financeira! E, agora, não gasto meu dinheiro patrocinando esse sistema putréfulo de escravizar a fé dos pequeninos. Não quero participar de tal infâmia! Que o pouco que tenho sirva não ao luxo dos templos e de seus donos, mas, aos que realmente necessitam da minha fidelidade financeira resultante da confiança no Jeová Jiré. E não da ameaça pastoral de maldição da pobreza versus prosperidade.

Quero ser livre para pecar! E da mesma maneira não pecar por entender que não me convém. Mas, se o desejo do pecado ronda a minha mente e não peco por causa da pressão de ter que me consagrar no ministério da “i”greja, que pobre que sou. Porque ainda não seria livre do pecado, mesmo não o praticando… Quero aprender a conduzir meu estilo de vida como resposta de gratidão à aceitação e perdão de Cristo, não como regras e proibições eclesiásticas que não tem efeito nenhum contra o pecado.

Estou desconstruindo a minha fé míope e doente para cultivá-la de forma autêntica, sincera, humana e verdadeira. Estou disposto a arriscar minhas crenças pelo conhecimento da verdade eterna, de modo, que mesmo vendo-a como em espelho, possa um dia conhecê-la completa assim como sou conhecido. Se para encontrar o Deus que está estampado no caráter de Cristo, me tornar necessário descrer do Deus pregado, e tornar-me ateu, que assim seja. E que possa, conhecê-Lo de forma pura, única, pessoal e intransferível.

Quero derrubar meus pilares espirituais porque não sei de onde vieram. Estavam lá no discurso e na retórica que pseudonimamente aceitei como sendo Jesus Cristo. Agora, nego a cartilha que reza, nego a teologia pronta que engoli e dou-me a oportunidade de aceitar, de fato, Cristo meu Senhor e Salvador, pura e simplesmente.

Se fosse possível voltar ao ventre de minha mãe e carregar em meus genes a luz que agora vejo, para que ao nascer, soubesse desviar dos caminhos que para o homem parecem bons, poderia começar de novo sem incongruências e inverdades ludibriosas.

Talvez, só agora tenha entendido o que significa “nascer de novo”…

(Thiago Mendanha)

Somos donos de nossos atos,
mas não donos de nossos sentimentos.
Somos culpados pelo que fazemos
mas não somos culpados pelo que sentimos…
Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos.
Atos são pássaros enjaulados,
sentimentos são pássaros em vôo!”

Mario Quintana

Mosaicos

Mosaicos: Mosaicos são obras de arte. São feitos com cacos. Os cacos, em si, nada significam. Não têm beleza alguma.  São peças de um quebra-cabeças. É preciso que um artista junte os cacos segundo o seu desejo. As Escrituras Sagradas são um livro cheio de cacos: poemas, estórias, mitos, pitadas de sabedoria, relatos de acontecimentos. Quem lê junta os cacos segundo manda o seu coração.  Os mosaicos podem ser bonitos ou feios. Tudo depende do coração do artista. Como disse Jesus, o homem bom tira coisas boas do seu bom tesouro; o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro. Coração mau faz mosaico feio, coração bom faz mosaico bonito. Como sugeriu Bachelard, quem tem muitas vinganças a realizar faz mosaicos de infernos. Estou juntando os cacos de que mais gosto para fazer o meu mosaico. Há muitos outros mosaicos possíveis, diferente do meu. Cada religião é um mosaico, um jeito de ajuntar os cacos. Um dos meus cacos preferidos é esse poema do profeta Habacuque, um poema de esperança. O que ele  escreveu há milênios pode ser repetido hoje, pensando na seca que seca do rio Amazonas e nos desvarios dos políticos em  Brasília:

“Embora a seca seque  fontes e  rios

E os campos fiquem esturricados,

E o gado morra de sede e fome,

E as queimadas devorem os pastos

E os machados transformem florestas verdes em desertos áridos,

E os palácios estejam cheios de corruptos –

A despeito disso minha alegria continuará a florir

E farei poemas diante do Impossível.” (Habacuque 3:17-18. Paráfrase).

(Rubem Alves)

Um Maravilhoso fim de semana pra vocês! E que possamos sempre estar dispostos, embora pareça ser bastante difícil, a juntar os nossos cacos e fazer deles um belo mosaico. Super abraço!
Felipe.

Da tristeza

“É preciso ter tristeza. Tristeza não é ruim. Quase todo mundo só quer escutar musiquinhas alegres, ir dançar em lugares barulhentos, ficar falando o tempo inteiro. Porque eles tem medo da tristeza. Mas não é a tristeza que mata.”

(Fernanda Young)

Da felicidade

“Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz”!

(Mário Quintana)

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