Hoje, estava lendo ‘Maíra’, do Darcy Ribeiro, que fala sobre os índios mairuns. Em certo capítulo, uma espécie de ritual é narrado. Os jovens Mairuns, para serem considerados homens adultos, vão atrás da sucuridju, a cobra gigante:
“O cobrão brame sem cio, só de fúria, mas se entrega por fim quase imóvel, tremente. Teró solta , então , a cauda, gritando a Jaguar que solte a barriga e venha segurá-la ali. Teró vai adiante agarrar o pescoço da sucuridju, bem atrás da cabeça onde está Maxi que solta o cobrão e se põe diante dele, atônito. Teró grita, ordenando que ofereça a cara à mordida da sucuridju. Maxi quase duvida um instante, mas logo se inclina e mete o queixo na boca monstruosa, que morde uma dentada firme de cachorro raivoso.
[...] A tarde está caindo, mas eles devem remar rio abaixo umas horas mais pela noite adentro, antes de acampar, na boca do igarapé. Teró sorri contente. Os jovens homens remam silenciosos, sérios, circunspectos, com o sentimento da importância do que acaba de ser feito. Ninguém limpou a cara manchada do sange coalhado e ressequido. Ainda em silêncio, armam as redes bem junto umas das outras, cada qual com seu fogo aceso debaixo, contra muriçocas e os curupiras, ladrões de sangue e de almas mairuns.”
Não quero discutir se tal ritual é errado ou não. A propósito, de primeiro, fiquei pensando: “Quanta ignorância. Meter a cara na boca de uma cobra para ser considerado maduro.” Mas, depois, percebi que, tal qual os jovens índios, somos submetidos, diariamente, ao mesmo ritual. Conversei hoje com um querido amigo sobre isso. A maturidade e o crescimento vêm, muitas vezes, com a dor de submeter o rosto à mordida da maior sucuridju, a vida. Implacável em seu bote que nos fere o rosto e nos faz sangrar. Mas não devemos lamber as feridas, ou enxugar o sangue que delas escorre. Isto faz de nós verdadeiros guerreiros mairuns adultos.
O Rubem Alves exemplifica de uma outra maneira
“[...]O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. [...]“
Bom começo de semana pra vocês! Abração,
Felipe Santiago








